Alex e Liz estudavam juntos. Ela, 22 anos, bonitinha e bem séria, havia terminado um namoro recentemente. Ele, profissional, 33 anos, moreno, alto, e com olhos de ressaca¹, tinha acabado de se recuperar de uma depressão profunda por causa de um ex-amor.Liz tinha a sensibilidade de perceber sua carência extrema, mas era educada e receptiva à novos amigos. Alex, sentia-se compreendido e "acolhido". Ao final do semestre, não conseguia mais disfarçar seus sentimentos. Entretanto, sempre se perdia em suas ações, que oscilavam entre grandes gentilezas e atos desvairados:
- Liz, vou levá-la para casa hoje.
- Não precisa, obrigada.
Ele a-olhou de um jeito, que seus olhos pareciam que iam saltar da face. Apertando-lhe o braço com força, disse:
- EU ESTOU DIZENDO QUE VOU LEVÁ-LA PARA CASA.
Liz olhou para uma amiga, quase que pedindo socorro, mas não teve reação. Já sabia que suas atitudes beiravam a loucura e achou melhor não contrariar. Entrou no carro pálida e com o corpo todo trêmulo. Durante o percurso, respondia às perguntar de Alex com monossílabos, ao mesmo tempo que rezava todas as orações que conhecia.
Por um determinado momento, achou que ele iria mudar o caminho, mas ficou aliavada ao perceber que estava chegando em casa.
Ele atropelava as conversas, impedindo-a de sair do carro. Mas neste momento ela sentia-se segura. Podia correr ou gritar. Estava dentro do seu condomínio.
Quando num momento de silêncio, foi surpreendida por um embrulho de presente.
- Liz, vamos colorir nossa amizade?
- Hãn?
Não acreditando naquela pergunta, ela abriu o presente e literalmente encontrou uma caixa de lápis de cor. Sorriu ao pensar que bastavam duas cores ali dentro. Afinal, para ela aquela amizade estava totalmente desenhada em preto e branco...
¹ Metáfora usada por Machado de Assis em Capitu. "Os olhos de Capitu eram como aquela onda cava e profunda que ameaça avançar e tudo tragar."
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Carinho amigo